Xuruto Ou Bazaruto?

Férias que são férias significam descanso, paz – misturada com um pouco de turbulência – e aprendizado. Lembro-me que quando era mais nova férias eram sinónimo de ir às compras… Tudo que eu queria era entrar em centros comerciais, comprar roupas, calçados da moda e todas as versões de Barbies – melhor ainda se fossem as princesas da Disney, já que eu e a minha irmã tínhamos uma coleção. Não percebia nada quando o meu pai dizia que queria ir ficar sei lá onde, no meio do mato, fazer safaris e ver animais. Isso para mim era uma ideia absurda. Mas pior que isso, era quando íamos às cidades onde tinham os centros comerciais e ele decidia que devíamos ir à um parque ou museu. Passava-me de aborrecimento e indignação, e esperava impacientemente pela hora em que voltássemos ao meu “habitat”.


Mas cresci, e como cresci! Virei a versão feminina do meu pai. Quem diria! Já acampei durante 8 noites e já não consigo aguentar-me mais de 2 horas a zanzar no centro comercial sem começar a ficar rabugenta e cansada, a procura de um banco para sentar. É o caos!


A Larissa de 24 anos é um caos, o terror da Larissa adolescente de 15.


Mas então que viemos à Bazaruto passar alguns dias e dentre as atividades sugeridas, a que mais interessou ao meu pai foi a visita à ilha e às comunidades. Adivinhem quem foi a primeira e única alma a se voluntariar para lhe acompanhar? Pois é, eu! O amor pela cultura tem vindo a crescer todos os dias e no meu perfeito estado de saúde e sanidade não poderia deixar passar uma oportunidade daquelas. Lá fomos em família – sim, as outras foram convencidas… não, foram obrigadas a acompanhar-nos depois de muito apelo e meia chantagem por parte do meu jovem pai.


A visita à ilha foi muito boa. Fomos orientados e conduzidos pelos senhores Lourenço e Alberto. Para nossa enorme satisfação e aprendizado, o Sr. Lourenço é um nativo que conhece a ilha como que se tratasse da palma da sua mão. Depois de muita conversa ficámos a saber que além de trabalhador do resort onde estamos hospedados, ele é, também, presidente da associação da comunidade local da ilha de Bazaruto. O sr. Lourenço contou-nos que afinal de contas os nativos não sabem ao certo o motivo por detrás da atribuição do nome de Bazaruto à ilha. Sabe-se que os portugueses é que a chamaram de Bazaruto, o porquê disso não se tem a certeza pois existem duas possibilidades. Segundo o Sr. Lourenço, antigamente a ilha chamava-se Xuruto (ou Churuto), mas ao que tudo indica, os portugueses não conseguiam dizer o nome e isso pode ter feito com que eles o alterassem. A segunda alternativa é o facto de que era aqui abundante um tipo de concha chamado Bazarutana. A Bazarutana era muito valiosa e usada como moeda, pelo que eventualmente os portugueses tenham decidido chamar à ilha de “Terra da Bazarutana” ou Bazaruto. De qualquer maneira, Bazaruto é o que é: Xuruto, Terra da Bazarutana, ou até paraíso. Sim, de todas as terras que pisei na minha vida, nunca fui à um sítio mais parecido com a minha ideia de Jardim de Éden, senão aqui.


Esta dicotomia entre a origem do nome Bazaruto, associada a algo que escrevi no meu “Diário de Viagem – Dia 2”, fez-me começar a refletir sobre o quanto a vida é feita de dualismos.


Escrevi o seguinte:

“Lembro-me que quando me afastei da borda do barco, sentei-me um pouco mais para o meio, e o vento já não me dava chapadas à cara, pude realmente apreciar o vasto mar à minha frente. A água entre Vilanculos e Bazaruto é mesmo azul, com partes de um azul esmeralda vivo, e outras mais escuras por causa das sombras das nuvens. Ela brilha, a água brilha. Cintila como se tivesse diamantes à superfície. Então deixei-me envolver pelo vento, acalmei o espírito e lembrei-me a mim própria que estava ali para viver, para descansar e aproveitar cada momento. Foi nessa altura que vi uma mensagem de um amigo que, traduzindo, dizia assim “Garante que o teu coração está cheio de paz e saúde em alta magnitude. Põe-te em primeiro e entra num estado de liberdade. Abraços.” Essa mensagem foi a cereja no topo da viagem e emocionou-me bastante, tal como o faz agora que a releio. Toca-me porque, honesta e cruamente, todos os dias sinto que já perdi tanto tempo na minha vida, e que tenho de correr atrás do prejuízo. Todos os dias me encontro num estado de alerta e à procura da oportunidade que me vai confirmar que não foi nada em vão e que não estou atrasada. Pode parecer meio “sei lá”, mas essa é a verdade. Embora acredite estar no caminho certo, é difícil convencer-me que tomei as decisões apropriadas, e que não havia melhores soluções. Então, no fim do dia, e hoje, quando tento relaxar e desfrutar de experiências incríveis como a que estou a viver, não me acho merecedora de tal porque, lá no fundo, acredito que deveria ter feito mais, muito mais, nos últimos anos. Enfim, não me vou alongar mais porque o nó na garganta, as lágrimas e o nariz entupido já cá estão.”


Pensei muito nesse parágrafo que escrevi na minha entrada de diário porque realmente vivo numa dicotomia constante, entre o estar contente e satisfeita com todo o esforço que coloco, semana após semana, para me sentir realizada, numa missão e à caminho de um ponto onde vou finalmente poder usufruir dos resultados do que tenho feito; e o estar bastante frustrada e desapontada comigo própria por algo que não é minha culpa, mas que a sociedade em que vivo faz um esforço tremendo para fazer-me acreditar que é, e em momentos até consegue.


A vida realmente é um conjunto de opostos que se atraem. É estar feliz hoje e ser abalado amanhã, receber o salário hoje e ter um acidente de carro para a semana, implicando um acréscimo exorbitante nas nossas despesas, uma nova despesa para a qual não estávamos preparados.


A vida é, e conto-vos agora algo que o sr. Lourenço nos explicou hoje, acreditar que sereias existem e que elas fazem o mesmo que o vento e a chuva. Ora, não é assim tão simples, mas não imaginam a confusão que me bateu quando o sr. Lourenço nos perguntou “conhecem sereias?” e eu respondi meio que atrapalhada que sim. Inicialmente esperava que ao desenvolver ele fosse mencionar algum peixe ou animal a que se pudesse equiparar às sereias, mas isso não aconteceu e quando perguntei à minha mãe se ele realmente se referia ao tal ser místico e ela disse que “sim, aquela que tem tronco de mulher e cauda de peixe.” Então o que aconteceu foi que estávamos no carro da nossa visita à ilha, no “lado de trás” da Duna Mbiti, a espera do meu pai e do sr. Alberto que haviam dado a volta por cima e à pé. Eu queria ter ido com eles, mas eram 14 horas, estava muito quente, eu estava de chinelos e os meus pés queimariam com a areia que fervia de calor. Enquanto esperávamos, o sr. Lourenço contou-nos que quando ele era pequeno, brincar para ele significava explorar a ilha à pé e surfar nas dunas. Aquela era uma das dunas de surf. O que, entretanto, o Sr. Lourenço apontou foi que a duna, que suportava uma “mini floresta”, estava agora desértica e a sofrer erosão. O sr. presidente da associação então explicou que a erosão era causada pela acção da sereia – que estaria a viver no lago ao pé da duna e que é o mesmo sítio para onde a areia desliza – e pela acção do vento e da chuva. A minha primeira reação foi a de querer negar aquela informação como verdadeira, visto que não há, até onde vai o meu conhecimento, provas de que sereias realmente existam. Mas pouco depois eu me apercebi que se o sr. Lourenço realmente acreditava no que dizia, então eu não tinha porquê negar. Ele, melhor que ninguém, conhece a sua terra e eu não posso invalidar a sua crença. Se ele me diz que foi uma sereia, então assim foi, uma sereia. À similaridade do sr. Lourenço, muitos vivemos na base de crenças não apoiadas em argumentos cientificamente comprovados, por exemplo a astrologia, a religião, entre outros. Não as colocamos como centro das nossas vidas e aceitamos também o que explica a ciência.


Acredito que o segredo da vida realmente seja a harmonia entre opostos, o equilíbrio, o aceitar que há uma dualidade ou multiplicidade de opções válidas, realidades, oportunidades, momentos e experiências. E que todas elas são importantes nas nossas vidas. Sentir-me frustrada não é de todo mau, desde que eu consiga usar isso a meu favor e transformar em algo útil. Estar contente e satisfeita não é de todo bom, pois é criar condições para mais deceções. Afinal de contas, só não se desaponta quem nada faz. Mas em última instância importa referir que tudo passa, mas a dualidade é uma constante nas nossas vidas. Isto e/ou aquilo, Xuruto ou Bazaruto, tanto faz.


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