Será que realmente matámos o cão-tinhoso?

Inspirada pelo ano novo, pelas análises de pensadores moçambicanos que tenho apreciado nos últimos meses e, em particular, a minha vontade de aplicar o que tenho aprendido, com bastante prazer e orgulho, achei que a melhor maneira de iniciar esta nova temporada fosse através de um alarme, algo que nos despertasse.


Recentemente tive a graça de petiscar o subcapítulo 'A competência intercultural: um imperativo académico, profissional e social no âmbito das dinâmicas globais' da obra “Além do Túnel: Ensaios E Travessias" do Prof. Dr. Francisco Noa e participar numa discussão catapultada pela análise do mesmo. A conversa induziu-me a um estado de autocrítica e não resisti senão a chamar atenção aos meus colegas ao facto de que muitas vezes nós nos perdemos no conformismo e no conforto dos nossos maus hábitos, esperando que, no entanto e de forma miraculosa, estes nos tragam resultados de um esforço não reunido.

Além dessa ocasião, um outro episódio, já mais recente e acerca duma crítica em redes sociais ao funcionamento dos serviços públicos cá da cidade das Acácias, fez-me voltar a pensar sobre como embora haja muito que se melhorar no atendimento das nossas instituições, há também bastante a ser limado na atitude do cidadão, dos utentes. O típico moçambicano, e eu inclusa, deixa os seus assuntos mais importantes para tratar na última hora, o típico moçambicano não suporta formar fila, tem que arranjar um “cunha”, uma alternativa rápida, o típico moçambicano... enfim.


E porque talvez esse seja o tema mais clickbait abordado nas redes sociais no início do ano, porquê não divagar um pouco acerca dele? Pois é, falemos sobre mudanças!


O título que escolhi desperta alguma coisa em qualquer moçambicano que tenha concluído o ensino básico do currículo nacional, afinal de contas é uma alusão ao clássico conto “Nós Matámos O Cão-Tinhoso!” do escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana. Este conto, que é fartamente estudado na secundária, é considerado um clássico da literatura moçambicana por se tratar de um manifesto sobre um dos períodos mais desafiantes da história do nosso país. Em suma, o enredo desenrola-se a volta de um cão doente e cansado, que muitos consideram uma metáfora para representar o estado do regime colonial no contexto temporal em que a obra foi escrita. No fim, o cão é morto por um grupo de crianças, sendo que isso simbolizaria o início da luta de libertação nacional e a independência. Há muito que se possa dizer sobre o conto, mas isso é tema para outro artigo.


No conto de Honwana, embora o cão não representasse uma ameaça física para ninguém, por causa do seu mau estado físico, de alguma forma e aliado a outros factores, ele mexia com o psicológico da comunidade, o que conduziu para a sua morte. Houve mudança. Eles mataram o cão-tinhoso.


Ora, se nos abstraímos do contexto político-histórico e temporal em que se enquadra o conto, o cão-tinhoso pode representar qualquer coisa que nos infeste, nos corroa. O cão-tinhoso pode representar um hábito, um costume, uma forma de viver, um vício, um pensamento… enfim, há uma multiplicidade de opções presentes no nosso dia-a-dia, na nossa sociedade.


O facto engraçado que eu quero aqui salientar é que todos os anos nós prometemos matar o cão-tinhoso e, sem vergonha na cara, falhamos. Não falhamos por falta de recursos ou consciência, mas sim porque estamos bastante confortáveis com a nossa forma de viver que a mudança que tanto pregamos e pela qual oramos vai sendo adiada, dia após dia, até sabe-se lá quando.


Então que recapturando o significado de “Nós Matámos O Cão-Tinhoso” e aproveitando que o ano novo é associado à mudanças, prosperidade e esperança, volto a perguntar: será que realmente matámos o cão-tinhoso? E se não, será que é desta que o faremos?



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