o primeiro devaneio.



um dia pus-me a pensar:

escrevo tantas coisas

e sempre anseio por partilhá-las,

mas nunca o faço

porque medo tenho de que me vão criticar.

escrevo dezenas de devaneios,

sonho histórias de centenas de vidas

e falo milhares de palavras jamais ouvidas;

no entanto, nada partilho

porque tenho receio de que a mim vão associá-las.

confesso que a ficção vem da imaginação

e, por sua vez,

a imaginação vem da experiência

(ou não);

mas ora,

fé tenho eu de que não se vão confundir

e pensar que da minha privacidade decidi prescindir.

confesso ainda que escrevo cartas,

cartas de outras vidas,

trazidas pela corrente do índico,

onde em baía um dia vivi.

e não foi há muito,

daí a minha memória fresca,

feita de lembranças empurradas pela brisa;

mas também não foi há pouco,

pois carrego comigo uma alma madura e aberta,

tal como a mafurra de dezembro das terras onde em outrora vivi.

enfim,

então foi naquele dia

que concluí que era tempo,

tempo de partilhar as minhas histórias com o universo,

com quem as quisesse ouvir.

©2020 by Larissa Daniel