o ponto sem ponto final (última carta)


muitas vezes tenho a impressão de estar a viver um conto de fadas, uma daquelas histórias que alguém documenta num diário e um dia um estranho qualquer apanha, lê e vive tanto quanto quem o escreveu. uma daquelas histórias que um dia é transformada num filme verídico e dedicada àqueles que a sentiram na pele

esta história é bonita, mas um tanto quanto triste. afinal, crescemos a ouvir “estórias da carochinha” onde o final é “… e viveram juntos e felizes para todo o sempre”. não, nossa história não é assim, mas é igualmente efervescente

daquilo que sei, um dia te vais casar, e eu também; um dia te vais multiplicar, e eu também. e por essa altura já não havemos mais de nos falar


quais parceiros esses que sobreviverão o esticão que é esta nossa ligação? não existem, não, não, não acredito que existam. já aconteceu antes e vai acontecer de novo, e eu sei que pode ser difícil de aceitar, mas sobre isso nem quero mais me debruçar. de uma coisa, tenho a certeza: nós dois mais outros dois não é possível conjugar


engraçado, serei eu um e o meu dois, tu um e a tua dois, e então viveremos bons dias e criaremos memórias sem igual. e um dia, sei lá, num dia qualquer, o destino troçará de nós e dirá assim: “mas pensam mesmo que me esqueci de vocês dois?”. e será nesse dia que nos vamos reunir, não graças a um desejo, mas porque o universo nos terá forçado. talvez numa reunião de trabalho ou da escola dos nossos pequenos, será tão natural que nos vamos questionar sobre que destino é esse que não se dá por derrotado?


e será esse o dia do início do fim. mais uma vez, vamos conversar de novo e de novo, até que te direi que “da minha família não abro mão e que não procuro confusão no meu coração. para o bem de ti e de mim, deixemos as coisas como estavam antes, que era melhor assim”

e será provavelmente porque te recusarás a colocar nesta história, um ponto, que numa casota de idosos se vai realizar o nosso reencontro. ou talvez não, já que na história da minha família, as mulheres não ficam sozinhas e morrem antes de se darem por velhinhas, então se calhar uma caixinha será deixada e te encontrará quando eu não mais estiver por aqui


e assim o fim… infeliz, eterna cicatriz

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