O Mito Da Ponta Vermelha

Tal como muitos moçambicanos, cresci a ouvir falar, em notícias e comentários diários, sobre os eventos e os feitos de uma tal de Ponta Vermelha. No entanto, o que talvez me diferencie de muitos dos meus compatriotas, é o facto de ter vivido grande parte das minhas primeiras décadas muito perto dessa então misteriosa e colorida ponta.


A Ponta Vermelha, é com certeza, um dos nossos maiores emblemas de poder – ou pelo menos assim a vê grande parte desta nação de que orgulhosamente faço parte – e é, talvez, o maior mito para muitos de nós. O que lá há? Um casarão, acredito eu, intitulado de Palácio da Ponta Vermelha.


Um mito? Talvez se perguntem. Sim, afirmo e reafirmo: o Palácio da Ponta Vermelha não passa de um mito.


Os seus inquilinos, todos conhecemos e sabemos serem reais. Seres humanos cuja forma muitas vezes contemplamos a partir dos nossos televisores, as vozes ouvimos na rádio, e a sua verdadeira existência é comprovada pelas bocas dos que os viram em pessoa e apertaram-lhes as mãos. Sabemos pelas nossas próprias experiências individuais, em que muitas vezes não passam de num dia poder partilhar o mesmo espaço que estas figuras – embora que à distância, mas próximo o suficiente para salvaguardar equívocos e confirmar que elas realmente existem. Mas do palácio, muito pouco sabemos, muito pouco vimos, e nem sequer o ouvimos.


Ora, se só para mim, que vivo à menos de um quarteirão de uma das cancelas que barra a entrada ao terreno onde se encontra este tal palácio, é-me difícil pensar nele sem recorrer a imagens irrealistas de cenários conjugados de palácios diversos que vi na televisão, imaginemos então para aqueles que nem sequer os pés colocaram nesta minha amada cidade de Maputo. Pois é, um mito.


Apesar de pouco conhecer, atrevo-me a intitular-me vizinha desse palácio e, como todo o bom moçambicano, sempre acompanhei tudo o que se passa na zona.


Se a Ponta Vermelha é emblema de poder, então os pavões que atravessam as cancelas cá para o nosso lado são símbolo dela. Afinal de contas, não há ritual mais sagrado que o de ver, nas manhãs dos fins-de-semana, pavões na rua, cantando e encantando com a sua plumagem que lembra o padrão de uma capulana preenchida com várias circunferências nas cores da nossa bandeira – sim, cores da nossa bandeira pois raramente vi pavões com tons bizarros de rosa ou beje; são sempre cores “africanas”. Espantosamente, durante estes meus 24 anos de idade nunca vi pavões alguns em qualquer outro canto da cidade de Maputo. Além disso, não me lembro de testemunhar uma alma tentar tocar nesses animais e, confesso, eu própria nunca me atrevi a chegar perto. Porquê? Talvez se perguntem. A verdade é que há um entendimento silencioso e unânime de que essas aves são soberanas, e talvez raras, portanto, não as podemos tocar.


Um outro fenómeno protocolar em volta do Palácio da Ponta Vermelha é a chegada dos seus inquilinos, em qualquer que seja o dia. Não há quem não se mortifique ao presenciar a passagem da frota da vossa excelência, O Presidente da República de Moçambique. Embora nos últimos tempos não seja assim tão comum – não sei ao certo se se terá mudado de endereço ou se tomou outra entrada como preferencial, pois são várias – esta ocasião outrora frequente era distrativa e perturbadora. Talvez os seus autores nunca estiveram cientes do impacto que é o aparecimento repentino de um turbilhão de carros pretos com vidros esfumados a velocidades um tanto quanto aceleradas para uma pequena rua de sentido único; acompanhados de meia dezena de polícias de trânsito em motorizadas, cuja função é senão desimpedir o caminho, e no fim uma carrinha com alguns militares. Nunca me habituei a confusão que se origina da apressada reorganização da rua para poder deixar passar a vossa excelência; é a materialização da brincadeira de “estátua” na vida real, onde todos os que se encontram na via param para assistir ao desfile não anunciado.


Outra característica que, na minha opinião, muito descreve o Palácio da Ponta Vermelha, é toda energia que o rodeia. Chamem-me de supersticiosa, exagerada, ou o que quiserem, mas a área depois da cancela tem uma áurea particular e pesada. Talvez por ser uma zona restrita, cujos acessos têm todos uma cancela e um guarda e, como se não bastasse, realmente não ser possível ver o tal de palácio do lado de fora. Só o simples facto de sabermos que lá para o fundo vive alguém importante e em perigo iminente é suficiente para sentirmos uma sobrecarga no ar. Não é possível não entrar em alerta quando presenciamos, cá de fora, mais movimento que o normal. “Algo importante se passa”, assumimos logo e procuramos saber o que é.


Os últimos detalhes de que tenho sempre em mente sobre este nosso palácio, o palácio do empregado do povo, são os factos de, de facto, não conhecer o seu interior, não saber de que cor são as suas paredes, quantos compartimentos tem, a dimensão do seu jardim, o número de serventes, enfim, tudo aquilo que faz parte da planta de qualquer porção de terra onde vivem pessoas. E isto é o que o torna num verdadeiro mito, numa curiosidade e no símbolo de poder. Afinal de contas quem mais poderia conseguir manter toda esta informação secreta, senão um conjunto de homens poderosos?



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